Afinal, parece que nada. Tudo isto que eu sentia era um tumor cerebral. Conseguiram eliminá-lo a tempo. Já me sinto jovem de novo. Eu bem estranhei sentir tanta velhice aos 25, mas como nenhum dos meus colegas de sueca estranhava, eu achei natural. O problema vai ser descobrir como funcionar com este corpo jovem. Bem, agora já não preciso de urinar nas calças ou chorar de solidão para que as raparigas me abracem. Talvez aí vá descobrir finalmente o que os meus amigos chamam de "tusa". Espero que seja diferente da dilatação que senti nas virilhas na primeira vez que vi o "Brokeback Mountain".
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Nem tudo o que parece vem de Abu Dhabi.
A minha vida já não tinha sentido. Não porque não tivesse mais pessoas onde me apoiar, mas porque já tinha cumprido tudo o que havia a cumprir. Podia sentir as rugas no meu ser. Custava-me simplesmente a sonhar. O sonho para mim estava realizado e acabado. O que restava eram migalhas de memórias recalcadas. Por isso para mim chegara a hora. A hora de descobrir o que me aguardava do outro lado. Onde a expectativa e a crença eram as únicas certezas.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Jesus caminha connosco.
Queres afastar-me, deixar-me sozinho.
Queres acabar, pregar-me medinho.
Não falas com um chavalinho,
Não tenho medo de te partir o focinho.
Eu não ando sozinho, tenho alguém
Que não me deixa ser ninguém,
Que me incentiva a fazer o bem
Sem nunca querer olhar a quem.
A tua retórica é coerente,
Mas a tua língua só mente,
O teu coração não sente,
O teu ódio cumprimenta-me de frente.
Receias a minha luz cabrão,
Sabes que ela te manda ao chão,
Sabes que ela encerra a razão,
Sabes que as chamas são a tua punição.
Garantes que Ele não existe e insistes
Que somos ovelhas e só tu permites
A liberdade que só tu transmites,
Mas é tudo falácia sem limites!
Tu ostracizas e aterrorizas,
Levas os mortos ao peito tipo divisas,
Fazes férias nos Mónacos e Ibizas
Á pala dos otários que minimizas!
Se escrevesse sobre o Amor
Ou política, receberia ardor,
Todo o feedback e calor
Associada à minha alegria ou dor.
Mas se falo na necessidade de Deus
Lavar estes pecados meus,
Já pertenço àqueles plebeus,
Mais burro que todos os ateus.
É essa a tua intenção, não é? Palhaço!
Gozas com todos no teu fatinho com laço,
Enquanto te perfumas com um verde maço
De ardores nossos, roubados sem traço.
Mas prefiro andar todo esfarrapado,
Pela sociedade alta e rica odiado,
Com os pés negros de tanto ter sangrado
E com Jesus todos os dias do meu lado.
sábado, 15 de outubro de 2011
A minha alternativa.
- Oi. Oi! Tu, sim tu. Tu que olhas para o horizonte com os olhos turvos. Eu lembro-me de ti! Não eras tu que tinhas aquele imenso talento? Que um dia todos os problemas se solucionariam assim que estalasses os dedos? Eras tu sim! Então? Como vai a vida? Tens conseguido maneira de espalhar a tua magia pelos comuns mortais? Vejo que sim, essa tua face apodrecida e esse corpo ressequido dizem-me que tens conseguido muito sucesso. Fico muito feliz por ti! Imagino que essa pistola seja para disparar uma salva em tua honra! Que bom, conseguires um momento de sossego só para ti. Com a fama que tu deves ter alcançado, aposto que é raro estares assim ao abandono. Bem, gostei de te ver. Espero que continues a mostrar o dom que nasceu contigo. Invejo-to diariamente. E não te preocupes, é normal tremeres tanto de emoção, não é todos os dias que somos os melhores naquilo que fazemos. Mas se calhar era melhor limpares as lágrimas. Alguns podem considerar um acto de sentimentalismo excessivo. Tudo de bom para ti.
"E, ao afastar-se, ouviu um tiro. Os pássaros afastaram-se, o ar recebeu as ondas de choque e eu sorri. Não reparei no jorro de sangue que saía daquela melancia esmagada que outrora fora um crânio humano. Não era essa a minha função de qualquer das formas. Como simplório que sou, apenas passeava, sem nada para fazer depois do meu trabalho comum, 8 horas por dia, 5 dias por semana. De forma simples, fiquei feliz. Ele sempre tivera talento, sempre lho disseram. Mesmo quando vários colegas apareceram com trabalhos bem melhores que os dele, não desistiu e continuou. Mesmo quando esses colegas foram laureados, ele não parou. Mesmo quando lhe recusaram a existência profissional, ele não parou. E agora provavelmente estaria a ensaiar o discurso de vitória. Felizmente vejo tudo de forma simples. Ai de mim complicar tudo como ele. Tenho pena de não ser tão inteligente como ele e prestar atenção a todas as notícias. Gostava de o ver na televisão."
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Quem quer viver para sempre?
Roubas sem pedir, tu. Não escolhes idade, não escolhes local, não escolhes nada. Nem sequer escolhes quem magoas. Não tens capacidade para isso, suponho eu. Para ti, não passa tudo de um jogo. Lanças os dados e a combinação que calhar diz-te onde será o teu próximo assalto.
Não te percebo. Há quem assuma perceber-te e até esperar por ti serenamente. Não acredito nisso. Como é possível querer-se receber em casa, no nosso ambiente familiar, alguém que existe apenas para desconstruir edificações de anos e anos de trabalho emocional? É por isso que o fazes? Por ninguém te querer? É uma conta paga em raiva a que descontas em nós?
Morte, eu odeio-te. Não é a tua existência, mas o que a tua existência cria em mim. Não quero ser egoísta, nem medroso, nem melancólico. Mas os teus roubos deixam-me assim. Se tanto roubas aos outros, porque não experimentas devolver? Fazer o bem, por uma vez na tua vida miserável.
Podes andar atrás de mim o tempo inteiro, podes levar-me quando quiseres, mas pára de roubar-me. Não tenho quem me proteja de ti. Eu imploro-te. Por um segundo, pensa bem antes de me roubar de novo. E se o fizeres, eu não vou compreender. Nunca.
Isto para ti são só caracteres, não é? Se tu ligasses, não matavas à descrição. Este é um esforço inútil não é, Morte traiçoeira de merda? Não vale a pena por-me com floreados e analogias e metáforas do caralho que te foda, porque tu, vezes e vezes sem conta, vais roubar-me até ficar sozinho não vais?
Puta de merda... E o pior de tudo é que não respondes. Não reages. Não nada. É como se não existisses. Até ao dia em que o assalto se dá. E toda a esperança do teu desaparecimento dissolve-se no teu rasto. E a revolta regressa.
Não quero viver para sempre. Mas não quero viver sozinho.
sábado, 1 de outubro de 2011
Culto da personalidade.
Olhas para ele e vês poder,
Sentes os cifrões na pele,
Vês nele o "vai-te foder"
Sempre que precisas de papel.
Não imaginas sequer o tempo
Que aquele manequim levou
Para se poder tornar o exemplo
Da aristocracia que ninguém renovou.
Mas no entanto vives calado,
Com medo da resposta
Que te deixe acabado,
Habituas-te à encosta
Puramente ficcional
Que a ilusão te provoca,
Em vez de fazeres o exercício mental
De tirares o coração da toca
E dizeres, com acções,
Estou farto de ser enrabado,
Estou farto que me capem os culhões,
Estou farto de ser condenado
À falsa iliteracia social,
Eu quero mudar o Mundo,
Eu quero tornar-me o tal,
Eu quero tirar-nos do fundo!
Mas preferes olhar para outros
E resignar-te às suas falhas,
Preferes que vos tratem como potros,
Bebés nascidos ao calhas.
Eu talvez não vá fazer barulho,
Ou festejar as minhas vitórias,
Talvez acabe deitado no entulho
Vendo otários cheios de glórias
Mas na terra focinharei
E a boca ficará aberta
Até poder dizer "a hipocrisia enterrei,
A verdade escrita será a certa."
sábado, 27 de agosto de 2011
Fatalistas da tasca da esquina.
"A natureza é assim mesmo. E se pensavas de outra forma, enganaste-te. Julgavas que podias continuar de olhinhos puros e ingénuos? Não, tens que chafurdar na merda de mundo que nos consome. E nem penses em tentar alterar algo! Esta é a nossa sina e com ela temos que viver! Uma sociedade civilizada assim exige, valores não aceites e defesa de mentiras sociais, fora daqui! Ou te rendes à máquina, ou te rendes. Quem faz frente desaparece e nem sequer é mencionado! Tinhas sonhos de ser um grande exemplo, de te passeares no teu manto de retalhos, proclamando a salvação dos oprimidos enquanto te tornavas o baluarte das gerações futuras, famintas por algo em que acreditar não era? Pois podes enfiar esses sonhos pelo cú acima! Porque assim que te vires lançado às feras no mundo real, verás que os teus idealismos não passam de utopias sem emenda! Ainda tens muito que crescer, ver muito, ganhar mais experiência!"
Prefiro ser um pedinte desconhecido, fiel aos meus valores, com uma carcaça por dia, do que um milionário sem moral, conhecido e amado por todos, com banquetes por hora. Daqui só levarão a verdade. Se isso me dará apenas desgostos e desemprego, pelo menos lutei.
É pena a luta ser minoria.
Sinto a tua falta.
É o teu aroma.
É essa tua existência,
Insistente permanência
Na minha implacável Sodoma.
Essa tua ondulação
Física e psicológica,
Esse jogo de lógica
Com que me cegas o coração.
É a tua presença sentida,
Pela tua ausência
Na minha essência.
É a saudade vivida,
Pela clarividência
Dum beijo futuro, sem clemência.
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