domingo, 6 de maio de 2012

Tristeza.

Eu sou triste.
Sou um pequeno triste
Num Mundo triste.
Entristeço quem me rodeia,
Entristeço-me com quem não está.

Fico triste com o que vejo,
Dá-me tristeza o que não sei,
Entristece-me tudo
E entristece-me o nada.
Tudo me faz triste.

Tão bela que é a minha vida.
Com dores reais,
Das que torcem a alma,
Abrem um buraco no caminho
E sugam-nos para a morte certa.

Tão maravilhosa que é a minha vida.
Com palavras que quebram
As expectativas que me alimentaram
Num talento cuja posse
Não passou de mera ilusão.

Tão gratificante que é a minha vida.
Com lágrimas que não controlo,
Sacrificadas em nome do amor
Que não passou do dicionário,
Que nunca se materializou.

Afinal, sou feliz.
Sorrio diariamente.
Dou gargalhadas.
No entanto, o coração grita:
DEIXA-ME IR EMBORA!

Não o quero ouvir mais.
Por isso digo, em confissão:
Eu sou um triste.
Sou um pequeno triste
Num Mundo triste.


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Balada do mentiroso.

Acorda o mentiroso,
Ao sabor daquilo em que não acredita.
Sabe-lhe bem e não é penoso
Olhar para aquela maldita
Imitação de felicidade,
Desprovida de humildade.

Substitui o coração caseiro
Pelo coração da rua,
Olhar caloroso pelo matreiro,
Merda tapada pela vergonha nua.
Afasta-se com um sorriso,
Explicação do mesmo, não é preciso.

Lá fora, onde ninguém o vê,
Pode ser o cavaleiro de outras terras,
O poeta maldito que ninguém lê,
O conquistador de falsas serras.
A conversa soa a verdadeiro,
Dá-lhe prazer o sexo passageiro.

Num raro momento de lucidez
A moral impede-o de lavar a aldrabice.
Mas a ignorância do que fez
Deixa-o manter, orgulhoso, a imundice
Que esconde debaixo das roupas
Adquirida com o esforço de mil garoupas.

Volta a casa com a formatação familiar,
Gritando insultos e ignorando paixões,
Invoca a sua seriedade, de admirar
Pelos que engana diaramente, os parvalhões!
Deixam o amor e essas tretas
Mascarar um belo embrulho de petas!

Deita-se na cama, contente consigo mesmo.
Foi mais um dia em pode ser homem,
Dominou os outros e foi macho a esmo!
Beija a mulher, como sempre, sem
Nunca lhe dedicar a palavra do amor
Que oferece cegamente a outro calor.

Pede, na sua mente, onde ninguém o ouve,
Tranquilidade, pelo menos por uma noite.
Há muito que não se recorda, se é que houve,
Duma manhã onde não se tenha sentido um alcagoite,
Onde, na loucura do sonhado,
Não tenha visto aquilo que faz, como errado!

Não. Provavelmente será só do cansaço.
Descansa, bandido, descansa.
Amanhã, vais precisar do teu carnal inchaço.
Só assim a fera da rua se amansa,
E podes voltar, tranquilo, com a alma distraída,
À mentira a que tu decidiste chamar vida!

domingo, 8 de abril de 2012

Sem sentido.

Apetece-me dizer coisas sem sentido. O Mundo, quando gira, faz cócegas na barriga. Os rios caminham sobre os seus leitos e os peixes tentam-lhes fugir o mais depressa possível. A terra acabada de regar pela chuva é mole e desagradável e seria muito pior se a pisasse sem estar calçado.

A minha barriga vai ficando mais gorda, culpa dos biscoitos que se me apresentam diariamente. As minhas pernas cansam-se de não ter vontade de perder a letargia. Os meus olhos procuram todos os dias no ecrã a resposta às olheiras que os embelezam.

Estou rodeado por belezas de todos os feitios, mas não ligo a nenhuma. Deus é bom e traz-me muitas bênçãos, apesar de quase ninguém crer nisso. Raramente estou sozinho, mas só quando te tenho perto de mim é que me sinto acompanhado.

Isto continua-me tudo a não fazer sentido. O que não deixa de ser curioso, porque é isso mesmo que procuro com muito afinco. Nem que seja o sentido de eu ter querido escrever isto. Porque andar muito tempo sem sentido é semelhante a um computador antes de colapsar e apresentar um erro fatal.


(Gostava de saber escrever sempre coisas bonitas, que fizessem sorrir por estar bem escritas e por serem especiais para todos os que lessem. Nunca mo ensinaram, por isso vou continuar a escrever isto que só eu leio.)

domingo, 1 de abril de 2012

Chuva.

É curioso.
Olho todos os dias,
De forma interessada
E decerto inteligente
Para as gotas da chuva
Que caem à minha frente.

Tenho o problema
Que não passa na cabeça
De quase ninguém -
Praticamente nunca chove.
Por isso mesmo
Isto pode soar a mentira.

Mas não é mais que verdade.
Se eu vejo as gotas
Onde o meu ser
É reflectido perfeitamente,
É porque chove a potes,
Afirmação irrefutável.

Como pode uma pessoa
Que não vê pelos meus olhos
Dizer-me, de forma séria
E exaustivamente deliberada,
Que eu não vejo a chuva
E o meu reflexo nas suas gotas?

Má-vontade e arrogância!
Esses ignaros, de olhos vendados
Com as mãos suplentes
Que nunca utilizaram,
Provavelmente porque não sabiam
Que elas sequer existiam!

Mal têm tempo de perceber
Que o seu Mundo varia
De íris para íris,
Ao sabor da mentalidade
Do coração formado
Pelas dores individuais!

Pois que continuem a duvidar!
Eu cá continuo a ver-me,
Sobrancelhas franzidas
E cara molhada,
Boca mais que salgada,
Bochechas reluzentes!

Não pensem que é com gosto
Que me vejo nas gotas da chuva!
Eu nem aprecio muito este temporal.
Apenas estou numa frente fria,
Vinda da zona Norte da existência
Que decidiu a minha criação.

Aguardo pacientemente
Que este temporal passe.
Estico muitas vezes a mão
A pedir um guarda-chuva
Para não me constipar,
Porque perco-os sempre.

Serei louco por ser o único molhado?
Se calhar a chuva misteriosa
É um sinal da minha insanidade.
Enfim. Será impressão minha.
Continuo a ver a chuva e nas suas gotas,
Eu, na minha existência encharcada.

No entanto, gostava de me ver
Pelos olhos dos cegos
Que me classificam como louco.
Será que teria um corpo tão largo,
Um olhar tão vazio de foco,
Uma barba que teima em não crescer?

Um nariz que torto não se quer endireitar,
Uma testa alargada pelo conhecimento
Que julgo acumular para meu bem-estar?
Um cabelo desalinhado e preguiçoso,
Uma boca arrogantemente sarcástica,
Disfarce perfeito do poeta?

Poeta? Como me posso eu chamar de poeta?
Está certo que escrevo umas linhas,
Às vezes rimam e têm metáforas bonitas.
Mas isto que escrevo, desabafo confuso,
Poderá ser chamado de poesia?
Não sei, nem vou chegar a essa conclusão agora.

A única coisa que depreendo
Deste meu exercício alheio
Às regras impostas pelos idos génios
É que continuo sem respostas a perguntas
Que nunca fiz a ninguém, nem a mim.
E a chuva não parou de cair. Nem sei se parará.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O que é ser?

Um dia, houve um rapaz que acordou e viu que não sabia quem era. Sabia o seu nome, sabia o nome dos pais, sabia a idade, sabia onde morava. Mas não sabia o mais importante. Qual era a sua cor preferida, a sua comida preferida, a sua música preferida. Que é o mesmo que dizer que não sabia nada. Decidiu ir perguntar aos pais. Chegou à sala e viu que estava vazia. Quer dizer, tinha uma consola, uma tv, algumas cadeiras perto de uma mesa, um sofá, muita porcaria no chão. Isso lembrou-o que os pais não viviam com ele. Disso ele recordava-se, mas era complicado recolher aquela lembrança. O pai tinha um problema de saúde grave. Tinha um défice extremo na compreensão do verbo fidelidade. A mãe, embora sem défices, perdia aos poucos o sentido da palavra felicidade. Voltou a esquecer-se deles. Era mais fácil e tinha uma tarefa mais complicada em mãos.

Decidiu sair de casa e procurar pela rua quem era. Procurou nos caixotes do lixo perto do seu prédio. Encontrou muita coisa. Mas os preservativos continham sémen que não era o seu. As cascas de banana não tinham sido deitadas fora por ele. As caixas enormes de electrodomésticos não condiziam com o que tinha em casa. Os desesperos monetários, os desempregos crónicos, os oportunismos burocráticos, nada disso lhe pertencia. Parou de vasculhar o lixo quando sentiu um aroma familiar. Andou no seu encalce. Sentiu um caminho abrir-se entre o cinzento da rua. Daquilo que se recordava, aquela rua era colorida. A estrada era amarela. Os postes azuis. As paredes dos prédios verdes. Os passeios vermelhos. As pessoas que caminhavam nela eram como sortidos de bombons, de vários tamanhos e feitios. Compreendeu que provavelmente seria uma memória falsa, daquelas que aparecem quando temos a esperança de que aquilo que vemos é apenas uma mentira cerebral. Apenas via vários tons de cinza. Uns mais escuros, outros mais claros, mas todos cinza. Nem preto, nem branco. Os tamanhos, os cheiros, as texturas. Nem branco, nem preto. Tudo cinza.

Chegou ao parque de onde via o cheiro. Mas não existia lá nada que pudesse ser cheirado. Apenas um homem com uma máscara. Pensou que o cheiro talvez fosse daquele mascarado. Perguntou-lhe, és tu que cheiras bem? Não, esse cheiro é uma alucinação natural de quem se esqueceu de quem era. Como sabes isso? Eu sei tudo, sou um feiticeiro. Senta-te aqui à minha frente, vou fazer-te uma magia. Não posso, tenho que encontrar quem eu sou. Porque tens tanta pressa? Imagina que sou um importante empresário? Posso estar a faltar ao emprego e arriscar-me a ser despedido. Não o és. Como sabes isso? Já te disse, sou um feiticeiro, sei tudo. Agora senta-te aqui à minha frente, vou fazer-te uma magia. O cheiro, entretanto, desapareceu. Foi o suficiente para ele o considerar realmente uma alucinação e ganhar confiança no feiticeiro. Sentou-se à sua frente. O feiticeiro puxou de umas cartas. Elas todas agrupadas pareciam uma só carta. O feiticeiro movia-as de mão para mão, manipulando-as a seu bel prazer. Ora apareciam na orelha, ora apareciam na manga, ora apareciam na boca, ora apareciam no chão. Gostas dos meus truques? Não, não vejo magia nisso, para mim é só cartas a passarem de um lado para o outro. O que tem isso de mágico? Tem muito, é preciso ter-se poderes especiais para manipular desta forma o tempo e o espaço. Se consegues manipular assim o espaço e o tempo, então faz-me sentir seguro. Isso eu não sei fazer. Então faz-me sentir feliz. Também não consigo. Então tu não fazes magia, fazes truques. E isso qualquer um consegue fazer.

Levantou-se para ir embora, mas o feiticeiro agarrou-o pelo braço. Ele não gostou disso e deu-lhe um safanão no braço. O casaco do feiticeiro abriu-se e mostrou um peito nu, feito de cabos eléctricos, de chips, de ferro. Que raio és tu? Já te disse, sou um feiticeiro, todos os feiticeiros são assim. E garanto-te que, com treino, posso conseguir fazer-te sentir feliz e seguro! Sabes o que significa ser-se feliz? Sei, significa sorrir e rir! Sabes sequer o que é amar? Depois de ter dito isso perdeu-se no seu pensamento. Não se lembrava de alguma vez ter ouvido aquela palavra. Enquanto procurava na sua cabeça o seu significado, não ouviu o feiticeiro a dizer que amor era ter as pessoas para si e elas não quererem mais ninguém do que nós próprios. Levantou-se, demasiado intrigado com aquele dilema para se preocupar com o feiticeiro. Ele ainda lhe gritou, não procures o amor! Isso rouba-nos a pele e as entranhas e ficamos sem nada!, mas de nada valeu, ele já não o ouvia. Nem sequer reparou que, ao começar a correr sem direcção, derrubou a máscara do feiticeiro, mostrando outra máscara por detrás da primeira. Enquanto corria, fazia um esforço cada vez mais árduo para perceber que raio era isso do amor. Esse esforço foi todo em vão, porque eventualmente perdeu a concentração. O cheiro tinha voltado, mais forte que nunca.

Olhou para a sua esquerda. O cheiro vinha do cabelo de uma mulher. Perguntou-lhe, és tu que cheiras bem? Não sei, não me consigo cheirar. Ele ficou paralisado. A voz dela fez com que ele parasse no tempo. Percebeu várias coisas. Percebeu que estava despido. Percebeu que não tinha conhecimentos inteligentes para contrariar aquela afirmação. Percebeu que não se conseguia mexer muito. Percebeu que a palavra amor nunca lhe tinha parecido tão real como agora, e no entanto ainda não sabia o que queria dizer. Depois de um tempo que na cabeça de qualquer um teria sido eterno, não tivesse sido só um segundo, voltou a falar. Desculpa estar nu. Não te preocupes, não consigo ver essas coisas. Então que vês tu? Apenas aquilo que é importante. Então que vês de mim? Vejo dois olhos, uma boca, um nariz. Vejo também dois braços, duas pernas, um tronco. Consegues ver quem eu sou? Não, não te conheço, como posso saber que o que vejo és tu? Eu também não sei se é, hoje acordei e esqueci-me de quem era. Vou-te contar um segredo, mas promete-me que não contas a ninguém. Prometo. Eu também não sei quem eu sou. Podemos procurar os dois? Eu não procuro quem sou, não acho que seja importante. Então o que é para ti importante? Isso não te digo já, tens que vir comigo, ouvir-me, aturar-me, suportar-me, agarrar-me, deitar-me, acordar-me, animar-me, entre outras coisas. Só o faço se o fizeres igualmente para mim. Temos um acordo então. Então foram os dois embora. O cheiro continuou a vir do cabelo dela. Ele não reparou que ela, à medida que falava, ia perdendo roupa, até ficar tão nua como ele. Não era isso que lhe importava de qualquer das formas.

A única coisa que lhe importava agora era saber o que era aquele pulsar tão forte que dava vontade de vomitar no seu peito. Não o deixava concentrar-se na procura do sentido da palavra amar. Mas também não o preocupava. Continuaram a caminhar, até desaparecerem naquela rua cinza. Um traço de cor ficou no chão, muito pequeno, a marcar a sua caminhada. No dia seguinte já estava cinza de novo. Enquanto caminhou com ela, nunca mais quis saber quem era. Interessava-lhe apenas saber quem ela era. E assim viveu até ter parado de respirar. Nunca soube quem era ou o que significava amor. Mas nunca mais conseguiu viver sem o pulsar no peito que lhe dava vontade de vomitar.

domingo, 25 de março de 2012

Estudos sobre o amor e a depressão.

Amor é o teu respirar
Embalar a minha atenção,
É o teu aconchegar
Tornar o mundo uma ilusão.

Depressão é rir o dia inteiro,
Para tentar não existir,
É ouvir o seu cantar matreiro,
Sabendo que vai fugir.

Amor é chorar meia hora
E depois jogar às cartas,
É discutir pelo caminho fora
Para perder o sentido às tantas.

Depressão é ser o tabaco
Queimado no cinzeiro,
É sentir cada buraco
Como um tiro certeiro.

Amor é o teu olhar
Repousado na minha boca,
É o mergulho em ti
Numa ansiedade louca.

Depressão é ser amado
E não significar nada,
É escrever um poema calado
Como uma loucura sem entrada.

Não sei se me encontro no amor
Ou se deambulo na depressão.
Conheço apenas o fervor
Com que me lancei na missão

De expulsar a dor compulsiva
De não perceber coisa alguma.
Mas foi uma fraca tentativa,
Acabei por sofrer mais, em suma.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Redenção falsa.

É muito bonito pedir-se perdão. A dor aumenta, a culpa também. Custa viver sabendo que se errou. Mas se não custava durante o erro, porque custa agora? Há erros evitáveis. Uns fazem-se no calor do momento. Quando o cérebro desliga e a boca fala sem rédeas. Esses pedaços de má memória, irreflectidos mas nunca esquecidos. Outros, erram quando tentam desbravar locais para os quais não têm autorização. Sabem que perderão o direito de os olhar se tocarem. Mas a curiosidade é forte demais. Ainda há quem erre 20 e tal anos. No fim, sentem arrependimento e juram não repetir. Porque duas dezenas de anos não serviram para repetição suficiente.

Não procuro clareza textual com isto. Não anseio por lirismo literário com isto. Não aguardo aceitação universal das minhas qualidades escritas. Apenas quero dizer uma coisa. Pede-se muito perdão e muita segunda opinião. Peçam antes juízo e dois dedos de testa. Talvez ajude a perceber que existem erros que são imperdoáveis porque deixam de os ser. Passam a ser crimes. Para isso, não existem segundas oportunidades.